Você vai
menina]
depois de tanto tempo
que deixamos pelo tempo rastos de pés esfolados
como pegadas que coagulam sob o meio dia
sem abrigo
perdidos em vias de laços estranhos
depois de tantas horas evaporadas
em que andamos juntos feito irmãos
trocando beijos de culpa e braseiro sob chuva ácida
Você olha
menina]
distanciando tua alma do sentimento imemorial
que condensa num aceno o turbilhão da história
entre afagos partidos e um lampejo de memória
A mesquinhez dos homens
à face traiçoeira rasgou o tempo do nosso fruto
como pétalas que perdi ao vento
o sopro da discórdia te arrastou
e com o coração bem longe de mim
fincaste tua nova morada inglória
prossegui minha estrada de tempo e calcadura
com sapatos de argila áspera capas de lamúria
persegui tua memória às pegadas do vento
a deixar as portas de nossas almas ao menos encostadas
menina]
Encontrei-me entre lazarentos e agonias cristalizadas
numa noite medonha sem fim
Agora você vem?!
menina]
Depois que meu tutano escorre pelo calcanhar
e minha boca sangra como um vulcão
Você vem
depois daquela noite polar agoniante
de ranger de dentes
em que o diabo tragou minha alma
em troca de uma cama e um cesto de pães
e umas cervejas
por tão pouco rendi minha alma
achando que você nunca mais viria
eu quis apenas deitar-me naquela cama
e rever nossa infância sonhada
no meu leito de morte
entre os restos de pães que comemos.
FELLIPE KNOPP
